Convergências entre Zygmunt Bauman e Edgar Morin

Parte 6/45 da série Pimenta nos Olhos

Na terça-feira da semana passada, estive na quarta noite de conferências do Fronteiras do Pensamento.

A conferência do sociólogo polonês Zygmunt Bauman que aconteceria em julho, teve que ser cancelada e, portanto, foi apresentado um vídeo exclusivo no qual ele concede uma entrevista de trinta minutos, antes da conferência de Edgar Morin, sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo francês.

O conteúdo da noite foi intenso. Foram muitos os aprendizados a partir dos olhares destes pensadores tão ilustres e o que mais me chamou a atenção foram as convergências dos discursos.

Tanto Bauman como Morin, falam sobre a interdependência, o estado de ambivalência que vivemos em período integral e a importância do auto-conhecimento.

Para Bauman, criador do termo vida líquida que se caracteriza pela efemeridade das relações, alguns acontecimentos são irreversíveis para a humanidade, como a interdependência numa esfera mundial: “Hoje estamos numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros… O que acontece na Malásia, afeta São Paulo… É a primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país.”

Sobre estados de ambivalência, Bauman fala sobre vivenciarmos ao mesmo tempo solidão e multidão: Tão fácil quanto ter 500 amigos no Facebook, é terminar uma relação de amizade, o que dá um caráter de fluidez às relações. Também é ambivalente a relação que traçamos com a segurança e a liberdade: Ao passo que a segurança é conquistada, perde-se em liberdade e vice-versa e esta é uma busca sem fim.

Além disso, Bauman explica que antes os jovens traçavam um projeto de vida e o perseguiam. Hoje, nossa vida é dividida em episódios, nos quais somos responsáveis por criar nossa própria identidade, não mais herdando-a. Não apenas precisamos criar esta identidade do zero, como temos que redefini-la o tempo todo. Por isto, o auto-conhecimento é tão importante.

Já Morin, defende a interdependência explicando que é preciso pensar a unidade humana em sua diversidade. Cada unidade humana se manifesta através da diversidade. Sendo assim, uma é interdependente da outra. A nova forma de pensar, proposta por Morin, é chamada de pensamento complexo e leva em consideração estes dois âmbitos: unidade e diversidade. Até então, o nosso modo de conhecimento estava pautado em disciplinas isoladas. Morin propõe um olhar transdiciplinar, exemplificado através da expansão da economia como disciplina isolada. Segundo ele, o cálculo, que é a base da economia, é um modo de conhecimento limitado. Não leva em conta os sentimentos do ser humano. Por isto, não se pode entender e estudar a economia sem olhar para os movimentos do mundo.

O pensador também fala sobre uma intersolidariedade entre continentes devido aos problemas e crises, como armas nucleares que matam em escala, economia mundial sem regulamentação, ameaça de degradação da biosfera…

Sobre movimentos ambivalentes, Morin explica que o mundo está ao mesmo tempo unificado e dividido e existem dois destinos a serem perseguidos: uma nova era para a humanidade com uma terra pátria ou a desintegração e fim da humanidade. Para ele, é positivo o fato da humanidade precisar construir um destino comum. Por isto, é necessário globalizar e desglobalizar, desenvolver e envolver, ou seja, ao passo que o processo de produção evolui e expande, é necessário proteger tudo o que nos envolve dentro de uma comunidade e aprender a lidar com o crescimento e a redução dentro de uma economia verde, atentando para o que realmente precisa crescer.

Como ponto crucial, Morin questiona quem tem a responsabilidade de começar a transformar primeiro: se a sociedade ou o indivíduo, e conclui que um não pode começar sem o outro. Daí a importância do auto-conhecimento para cada indivíduo. Ele explica o quão custoso é aprender a compreender o outro e o quanto é importante integrar a educação no processo como um todo.

Por fim, tanto Bauman quanto Morin terminam suas preleções com injeções de ânimo e confiança, falando sobre felicidade e esperança. Bauman afirma que para cada ser humano há um mundo perfeito, feito para ele ou para ela e Morin fecha com chave de ouro: “Apostei a vida inteira no improvável. No improvável está a esperança.”

Saí da Sala São Paulo naquela noite, com a certeza de que ainda tenho muito a aprender com estes ilustres pensadores que viveram quase um centenário e só me inspiram a continuar a busca pelo Progresso Compartilhado em nossa atual era da Interdependência.

Boas elucubrações para você.

@thaysaazevedo

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