Eduardo, Mônica, Vivo e uma revisão de conceitos
Thaysa Azevedo
Planejadora
@thaysaazevedo
Em meu último post, escrevi sobre a importância de refletirmos a respeitodo papel que a música, a dança e as artes em geral vêm assumindo em nossa cultura e a relação das mesmas com os novos formatos de comunicação.
Eis que nesta semana, começa a ser viralizado um filme em formato videoclipe da música Eduardo e Mônica do Renato Russo, produzido em comemoração ao Dia dos Namorados pela marca Vivo. A música, que completa 25 anos este ano, nunca teve um videoclipe e traz emsua história cantada uma sinergia entre os personagens e os serviços oferecidos pela marca.O detalhe desta estratégia é que a Vivo não fez um comercial de TV. Ela fez um videoclipe de uma música que é um dos maiores sucessos da história musical do país.
Quando defendo a ideia de pensarmos em como aproveitar melhor as artes e a música na propaganda,imagino que existam infinitas possibilidades. Esta é apenas uma delas e que tem a metade da dimensão que eu imagino como potencial resultado desta junção arte e propaganda. Porém, é 100% válida e já é uma ação de sucesso em termos de views na web.
Isto posto, insiro a questão do comercial da marca de telefonia ATL, que utiliza como trilha a mesma música de forma editada (cortam várias partes da letra para caber nos 30 segundos), cantada por alguém que não é o Renato Russo. Este comercial de TV, de uma marca que nem existe mais, foi apontado por muitos publicitários na Web como sendo uma versão original plagiada pela Vivo.
Esse acontecimento reflete um movimento de ação e reação típico do nosso mercado:
1 – Muitos publicitários têm dificuldades em admitir que algo feito pelo outro é bom. É muito mais fácil parar para julgar como plágio uma boa ideia alheia do que produzir um trabalho à altura. A pergunta que faço é: onde vamos chegar com isso? Além do mais, a discussão de ser cópia ou não em se tratando deste caso, se restringe apenas aos publicitários. Ou será possível que o público-alvo da ação se lembre de um comercial veiculado há dez anos atrás?
O fato é que as duas ações são pautadas por estratégias diferentes, criadas em formatos diferentes, para meios diferentes, que reverberam consequências diferentes. Naquela época, a internet nem tinha o poder viral que tem hoje. O que tem de igual? Pedaços da trilha e o casal se relacionando. Se uma trilha junto com algumas cenas de relação,veiculadas em TV há tempos atrás, por uma marca que possivelmente não faz mais (ou nunca fez) parte do repertório do público-alvo, forem elementos que justifiquem jogar no lixo uma ideia que tem potencial de trazer bons resultados para a marca, talvez esteja na hora revermos nossos conceitos (e não me digam que estou plagiando o posicionamento da FIAT). Como diria Zygmunt Bauman, a vida é líquida.
2 – Como reação a este rebuliço de inferências de plágio, vem alguém e “tira do ar” do You Tube (em questão de poucas horas) o comercial da ATL. Porque tirar do ar? Aparentemente, os únicos interessados em tirar este comercial da ATL do ar, são os próprios profissionais conectados ao recente videoclipe Eduardo e Mônica. Entendo que seria uma atitude muito mais autêntica bancar a originalidade e a qualidade do trabalho realizado do que simplesmente tirar um trabalho alheio do ar. Não se pode apagar o passado. Principalmente em se tratando do ambiente virtual que caracteriza parte da nossa vivência atual. Seja lá quem tirou do You Tube o comercial da ATL, teve como reação a mesma postura de superioridade de quem julgou o videoclipe uma cópia.
Por fim disto tudo, Eduardo e Mônica acabaram servindo não apenas como comemoração de Dia dos Namorados, mas também como uma oportunidade de desenvolvermos um senso crítico sobre determinadas posturas no nosso mercado publicitário.
- Parte 1: Luc Ferry e a revolução do amor
- Parte 2: Comunicação Iluminando Mentes no TEDxESPM
- Parte 3: Aonde foi parar a segmentação?
- Parte 4: Ressignificando tempo, espaço e acordos culturais
- Parte 5: Confiança: A nova alma do negócio.
- Parte 6: Convergências entre Zygmunt Bauman e Edgar Morin
- Parte 7: Hierarquia centralizadora ou autonomia compartilhada?
- Parte 8: Mudanças por uma nova era
- Parte 9: Qual é o objetivo da BIG IDEA?
- Parte 10: O Progresso Compartilhado nas relações de trabalho
- Parte 11: Quanto vale o show?
- Parte 12: O Admirável Mundo Novo de Miguel Nicolelis
- Parte 13: Shirin Ebadi e seu propósito de vida
- Parte 14: Eduardo, Mônica, Vivo e uma revisão de conceitos
- Parte 15: Onde Publicidade e a Arte se Encontram
- Parte 16: Fredric Jameson e a Estética da Singularidade
- Parte 17: O Desafio está Lançado
- Parte 18: A Publicidade no Pós 11 de Março Japonês
- Parte 19: One-to-One Contemporâneo: Foi dada a largada.
- Parte 20: On-Line e Off-Line: O que é isso mesmo?
- Parte 21: Dança das Cadeiras
- Parte 22: Qual será o próximo jogo?
- Parte 23: A Generosidade Embarcada
- Parte 24: Ensaio sobre as Férias – Parte 2 AS VIAGENS
- Parte 25: Ensaio sobre as Férias – Parte 1 A PAUSA
- Parte 26: Aprendizados da Semiótica
- Parte 27: Remoto-Controle
- Parte 28: De onde vem?
- Parte 29: Juntos pela Democracia Participativa?
- Parte 30: Um Mundo de Descobertas via Instagram
- Parte 31: Que venham as mudanças
- Parte 32: Quantos “Ípsilons” existem em sua equipe?
- Parte 33: Feudalismo Contemporâneo?
- Parte 34: A grande virada
- Parte 35: E a segmentação?
- Parte 36: Pulgas por trás do caso Scott Pilgrim vs. the World
- Parte 37: A Conferência do Grupo de Planejamento 2010
- Parte 38: Progresso Compartilhado. Um Sentido MAIOR para a Propaganda.
- Parte 39: Planejadores Brilhantes?
- Parte 40: O futuro, ao mundo colaborativo pertence.
- Parte 41: Levando o Aprendizado Contínuo para Dentro de Nós
- Parte 42: A Era da Interdependência já chegou para você?
- Parte 43: Brilho Eterno de uma Mente Curiosa
- Parte 44: Propaganda Eleitoral: Pior do que está, não fica.
- Parte 45: O Grande Aprendizado do New Brand Communication 2010