Remoto-Controle

Parte 27/45 da série Pimenta nos Olhos

O controle é uma questão latente em nossa sociedade atual. Seja como líderes de uma equipe, donos de uma empresa, como funcionários que exercem um determinado nível de senso crítico ou simplesmente como seres humanos, acabamos esbarrando nesta questão uma hora ou outra.

O fato é que quer gostemos dele ou não, o controle é uma peça-chave do sistema corporativista, governamental e social em que vivemos.

Segundo teorias dos filósofos Michael Foucault e Gilles Deleuze, a passagem da modernidade para a contemporaneidade ocasionou um processo de mudança do nosso modelo de sociedade: De um modelo Disciplinar para um modelo de Controle e, como todo processo de transição, ainda é possível observar tanto atitudes originárias do modelo disciplinar quanto do modelo de controle contemporâneo.

Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo nomadismo que se expande junto às redes de informação. (Universidade de Lisboa)

A sociedade de controle representa a continuação da sociedade disciplinar numa esfera mais ampla, profunda e subjetiva, agregando em si mesma a famosa lógica Big Brother, na qual o controle torna-se sedutor. Trabalha com uma ideia de individualidade “enganosa”. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas ao mesmo tempo.

Os aspectos disciplinares não desaparecem na sociedade de controle, apenas sofrem mudanças para que se tornem menos explícitos ao ultrapassar a fronteira entre o público e o privado. Dessa forma, a sociedade continua confinada nos grandes imperativos de controle, sem que isto lhes seja óbvio.

Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento, na sociedade de controle na qual ele é vigiado por alguém, há uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber. (Universidade de Lisboa)

Por exemplo: As crianças que antes tinham atitudes de “levadas”, visto como uma simples fuga à disciplina, hoje passam a ser chamadas de hiperativas, sendo necessário dopá-las com remédios. Uma forma de alienamento obrigatório. Não há um reconhecimento e uma aceitação da mudança: A geração mudou (virou Y) e, portanto, precisamos mudar o sistema. Não. A ideia é: O sistema vai continuar moldando os indivíduos, porque o controle está em suas mãos.

Em suma, o controle implícito aliena os mais suscetíveis gerando grandes doutrinas imperativas, difíceis de serem reconhecidas quando o indivíduo não está alinhado com sua essência. No modo disciplinar explícito, as regras do jogo são claras. Dessa forma, os insatisfeitos conseguem criar suas próprias estratégias para burlá-las. Com maior autenticidade. Você já parou para pensar que não há um cenário artístico no Brasil mais atemporal e genuíno do que o da época da ditadura? E o que temos hoje?

Como gestores dentro das empresas podemos estar rendidos à lógica do Big Brother, que acaba por tolher a criatividade mais genuína dos que ali estão para somar e não para igualar, uma vez que o controle lhes é subliminar. No fim, a tendência é que tudo se torne mais do mesmo.

Resta saber agora, o que nós – produtores e produtos da sociedade que criamos – faremos com isto daqui para frente.

@thaysaazevedo

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