Remoto-Controle
Thaysa Azevedo
Planejadora
@thaysaazevedo
O controle é uma questão latente em nossa sociedade atual. Seja como líderes de uma equipe, donos de uma empresa, como funcionários que exercem um determinado nível de senso crítico ou simplesmente como seres humanos, acabamos esbarrando nesta questão uma hora ou outra.
O fato é que quer gostemos dele ou não, o controle é uma peça-chave do sistema corporativista, governamental e social em que vivemos.
Segundo teorias dos filósofos Michael Foucault e Gilles Deleuze, a passagem da modernidade para a contemporaneidade ocasionou um processo de mudança do nosso modelo de sociedade: De um modelo Disciplinar para um modelo de Controle e, como todo processo de transição, ainda é possível observar tanto atitudes originárias do modelo disciplinar quanto do modelo de controle contemporâneo.
Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo nomadismo que se expande junto às redes de informação. (Universidade de Lisboa)
A sociedade de controle representa a continuação da sociedade disciplinar numa esfera mais ampla, profunda e subjetiva, agregando em si mesma a famosa lógica Big Brother, na qual o controle torna-se sedutor. Trabalha com uma ideia de individualidade “enganosa”. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas ao mesmo tempo.
Os aspectos disciplinares não desaparecem na sociedade de controle, apenas sofrem mudanças para que se tornem menos explícitos ao ultrapassar a fronteira entre o público e o privado. Dessa forma, a sociedade continua confinada nos grandes imperativos de controle, sem que isto lhes seja óbvio.
Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento, na sociedade de controle na qual ele é vigiado por alguém, há uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber. (Universidade de Lisboa)
Por exemplo: As crianças que antes tinham atitudes de “levadas”, visto como uma simples fuga à disciplina, hoje passam a ser chamadas de hiperativas, sendo necessário dopá-las com remédios. Uma forma de alienamento obrigatório. Não há um reconhecimento e uma aceitação da mudança: A geração mudou (virou Y) e, portanto, precisamos mudar o sistema. Não. A ideia é: O sistema vai continuar moldando os indivíduos, porque o controle está em suas mãos.
Em suma, o controle implícito aliena os mais suscetíveis gerando grandes doutrinas imperativas, difíceis de serem reconhecidas quando o indivíduo não está alinhado com sua essência. No modo disciplinar explícito, as regras do jogo são claras. Dessa forma, os insatisfeitos conseguem criar suas próprias estratégias para burlá-las. Com maior autenticidade. Você já parou para pensar que não há um cenário artístico no Brasil mais atemporal e genuíno do que o da época da ditadura? E o que temos hoje?
Como gestores dentro das empresas podemos estar rendidos à lógica do Big Brother, que acaba por tolher a criatividade mais genuína dos que ali estão para somar e não para igualar, uma vez que o controle lhes é subliminar. No fim, a tendência é que tudo se torne mais do mesmo.
Resta saber agora, o que nós – produtores e produtos da sociedade que criamos – faremos com isto daqui para frente.
- Parte 1: Luc Ferry e a revolução do amor
- Parte 2: Comunicação Iluminando Mentes no TEDxESPM
- Parte 3: Aonde foi parar a segmentação?
- Parte 4: Ressignificando tempo, espaço e acordos culturais
- Parte 5: Confiança: A nova alma do negócio.
- Parte 6: Convergências entre Zygmunt Bauman e Edgar Morin
- Parte 7: Hierarquia centralizadora ou autonomia compartilhada?
- Parte 8: Mudanças por uma nova era
- Parte 9: Qual é o objetivo da BIG IDEA?
- Parte 10: O Progresso Compartilhado nas relações de trabalho
- Parte 11: Quanto vale o show?
- Parte 12: O Admirável Mundo Novo de Miguel Nicolelis
- Parte 13: Shirin Ebadi e seu propósito de vida
- Parte 14: Eduardo, Mônica, Vivo e uma revisão de conceitos
- Parte 15: Onde Publicidade e a Arte se Encontram
- Parte 16: Fredric Jameson e a Estética da Singularidade
- Parte 17: O Desafio está Lançado
- Parte 18: A Publicidade no Pós 11 de Março Japonês
- Parte 19: One-to-One Contemporâneo: Foi dada a largada.
- Parte 20: On-Line e Off-Line: O que é isso mesmo?
- Parte 21: Dança das Cadeiras
- Parte 22: Qual será o próximo jogo?
- Parte 23: A Generosidade Embarcada
- Parte 24: Ensaio sobre as Férias – Parte 2 AS VIAGENS
- Parte 25: Ensaio sobre as Férias – Parte 1 A PAUSA
- Parte 26: Aprendizados da Semiótica
- Parte 27: Remoto-Controle
- Parte 28: De onde vem?
- Parte 29: Juntos pela Democracia Participativa?
- Parte 30: Um Mundo de Descobertas via Instagram
- Parte 31: Que venham as mudanças
- Parte 32: Quantos “Ípsilons” existem em sua equipe?
- Parte 33: Feudalismo Contemporâneo?
- Parte 34: A grande virada
- Parte 35: E a segmentação?
- Parte 36: Pulgas por trás do caso Scott Pilgrim vs. the World
- Parte 37: A Conferência do Grupo de Planejamento 2010
- Parte 38: Progresso Compartilhado. Um Sentido MAIOR para a Propaganda.
- Parte 39: Planejadores Brilhantes?
- Parte 40: O futuro, ao mundo colaborativo pertence.
- Parte 41: Levando o Aprendizado Contínuo para Dentro de Nós
- Parte 42: A Era da Interdependência já chegou para você?
- Parte 43: Brilho Eterno de uma Mente Curiosa
- Parte 44: Propaganda Eleitoral: Pior do que está, não fica.
- Parte 45: O Grande Aprendizado do New Brand Communication 2010